A sedução do trabalho de Patrícia Golombek reside na transgressão. Da mesma forma como subtrai da arquitetura e do cotidiano os elementos de autonomia dos seus objetos plásticos, ela também converte as imagens desses objetos em comentário textual. É o que acontece com este livro, feito quase que unicamente de representações gráficas. Ele pode ser, ao mesmo tempo, uma “catalogação” empírica, não cronológica e desordenada de um percurso de dez anos, um trabalho auto-crítico – de alguma maneira autobiográfico – e uma peça independente de criação.
Afinal, o que é um livro de uma artista, arquiteta e designer, senão um espaço de liberdade, onde a infração da linguagem é a base da originalidade do seu clima poético?
É, pois, nesse mesmo viés do intercâmbio dos signos e, portanto, dos seus significados, que deve ser entendida a procura de Patrícia. Não que ela utilize, para isso, um rígido programa estético ou que realize um “tratado” nascido de um inflexível processo formal. Ao contrário, em suas pinturas, objetos, esculturas, desenhos, colagens, relevos, assim como em seu livro, a transgressão e a troca são frutos de manipulações puramente lúdicas e imaginativas, nascidas do simples desejo de experimentar. Como se, a todo momento, ela estivesse satisfazendo curiosidades, resolvendo inquietudes ou definindo espaços individuais.
Com a intuição que muitas vezes só a ingenuidade deixa aflorar, cada obra constitui um domínio no qual ela toma todos os riscos e se autoriza algumas audácias. Entre elas, a perversidade necessária para fazer com que nosso olhar se atenha a um material, a uma frase, assim como a uma forma ou a um grafismo, com o intuito de que lhes adivinhemos as correspondências ou simplesmente para frustrar-nos com uma correlação exatamente oposta.
Penso que Patrícia gostaria que textos se transformassem em paisagens, frases em anedotas, linhas em volumes, palavras em formas, vazios em cores, cores em sinais, sinais em logotipos, logotipos em referências históricas, referências históricas em abstração. Como uma criança experimenta novas maneiras de entender (e de mostrar) o mundo que a cerca e a tradição que a precede, penso que ela gostaria de subverter a ordem das coisas, alterando-lhes as práticas e as funções. Para ela, a “arte é um conjunto de elementos que criam emoção”, porque é com essa emoção do deslocamento que são criados.
Curiosamente, pode-se dizer que o “livro de artista” foi inventado pelo marchand Ambroise Vollard, em 1900, com a publicação de poemas de Paul Verlaine, ilustrados por Pierre Bonnard. Hoje, entretanto, depois do movimento Fluxus e da arte conceitual nos anos 70, ele não representa mais um volume de “ilustrações”. Em princípio, como ocorre neste livro de Patrícia Golombek, ele é feito pelo próprio artista como objeto plástico, carnê de croquis, diário, textos e imagens em separado ou concebidos em dueto.
Aqui, Patrícia coloca em evidência duas relações. A primeira entre os conceitos (cores, materiais, palavras-chave etc.), que são uma forma inteligente e humorada de dispor as suas obras. E a segunda entre os próprios trabalhos que ela reproduz em cada página. Tanto conceitos como imagens entrechocam-se, ferem-se, porém amplificam-se e enriquecem-se mutuamente, gerando outros, subliminais, mas também presentes.
Este livro faz apelo à memória. Cada página influi sobre a próxima, às vezes se superpõe ou se apaga, para não raro voltar à carga, chamando as páginas seguintes. Trata-se da mesma lógica que pertence internamente às obras, quando elas são exibidas “ao vivo”, pois a arquitetura do espaço realizada por Patrícia Golombek, seja qual for o seu suporte, não possui a esquematização ou a gratuidade que, sobretudo nos trabalhos de arquitetos, advém por vezes da incapacidade de transposição das fronteiras entre a verdadeira criação artística e a simples organização de áreas, linhas e volumes. A sua ultrapassagem em direção à arte genuína é possível, porque nasce de uma necessidade particular e irrepreensível de experimentação, jogo e fantasia.